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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Maternidade digital: vida cor-de-rosa x dramalheira


Sou dessas: mãe melosa da vidinha cor-de-rosa assumida

Meu primeiro computador chegou só lá no segundo ano da faculdade, em 2000. Servia para digitar os trabalhos, era praticamente uma máquina de escrever com telinha. Depois veio a internet, de conexão discada e ainda tão poucos atrativos. O mais legal era ter um e-mail e falar instantaneamente pelo ICQ. Nessa época nascia minha sobrinha Isabella e eu era uma das primeiras tias da paróquia a ter uma câmera fotográfica digital, Mavica, com um diskete em que cabiam 10 fotos (cada foto pesava 40 kb e aquilo era uma maravilha). Serviu para que eu fizesse centenas de fotografias da sobrinha mais linda desse mundo e pudesse ter meus primeiros acervos digitais.

Apesar disso, ainda estávamos longe da realidade de hoje. Com a Isa valiam aqueles antigos conselhos das mães mais experientes. Uma passava para a outra. Lendas, simpatias, diz-que-isso, diz-que-aquilo, e quando muito alguma revista especializada, livros quase científicos sobre bebês... A maternidade ainda era analógica.

Dez anos depois tudo é tão diferente, as novas tecnologias da comunicação trazem tanta informação sobre tudo que ser mãe contemporânea é passar boa parte da gravidez sentada em frente à rede mundial pescando dicas, instruções, lendo bulários e compartilhando experiências. Desde "como dar banho em seu bebê", passando por conceitos médicos como "eclâmpsia" e "peridural", até, claro, os tipos de parto e os acalorados debates sobre o que é melhor, natural ou cesária?

Aí chega o bebê e a mãe descobre que tudo o que ela leu, até ali, é muito pouco, não dá conta do drama, romance, terror e comédia vividas num só dia pela mãe de primeira viagem, às voltas com fraldas, choro, visitas, peitos pingando, sono, dor, canseira e um bebê faminto - muito mais faminto do que ela supunha. Mais que isso... uma mãe devastada por hormônios insandecidos que insistem em fazê-la chorar e se desesperar com qualquer coisa. Uma mãe amedrontada que se faz de fortona para não dar bandeira do quanto se apavorou na primeira vez que aquele serzinho se afogou com a leitaria toda que jorrava no pós-parto.

Na sonequinha do bebê, depois de ter colocado a roupa para lavar, adiantado o jantar, tomado banho e tentado vestir qualquer roupa que traga um pouco de dignidade àquele corpinho ainda semigrávido, lá vai a mãe de primeira viagem para a internet encontrar outras milhares de mães que passaram exatamente pelas mesmas coisas. 

Aliviada ao ver que é tudo mais do que normal e que todas as mães sobreviveram, ela volta à rotina mais entusiasmada e aplica alguma dica contra a cólica que funcionou com alguém neste mundão. Ela troca e-mails com outras mães, entra em fóruns de sites especializados e descobre que existe uma blogosfera gigantesca de mães que, assim como ela, sentem o maior amor de todos e a maior culpa de todas.

As mães digitais estão aí, unidas, e até bem pouco tempo eu não fazia ideia de quão grande é este universo de progenitoras conectadas - desesperadas, amparadas, animadas. Todas dispostas a compartilhar suas iniciativas e até a revelar que tiraram uma lasca do dedão do bebê na hora de cortar a unha, que se acharam incapazes de dar conta de tanto trabalho e que mesmo assim não conseguem saber como viveram tanto tempo sem um filho (e sem internet).

A privacidade vai por água abaixo, web afora, e, além de pesquisar de tudo no doutor google, esta nova geração de mães quer mostrar pra todo mundo o quanto seu filho é o mais lindo, mais esperto, mais fofo, mais tudo - porque o filho da gente é tudo isso aí mesmo. A nova mamãe quase explode os limites de fotografias nas redes sociais (e pensar que quando o Orkut nasceu era permitido colocar apenas 12 fotos em cada álbum, lembram?) e espera que a família toda curta, compartilhe e comente o quanto aquele pimpolhinho sugador está encantador.

A maternidade na era digital criou este novo ser pensante, pesquisante e falante, que amamenta com o celular na mão para aproveitar o tempo e ver como as outras mães fazem para prevenir as assaduras nas dobrinhas do bebê, que mudou o jeito de ler jornais porque fica muito mais chocada agora com as notícias de crimes que envolvem crianças, que se coloca no lugar de todas as personagens das manchetes sangrentas e lembra que neste momento não tem o direito de morrer, e nem de passar horas no computador, afinal... o bebê precisa de fraldas secas, banho, musiquinha pra ninar e da voz da mamãe incentivando as primeiras palavrinhas.

As simpatias, os mitos, as tradições passadas de geração a geração pelas mães analógicas continuam valendo, mas vão parar também no blog, no post da rede social e no fórum de debates on-line. Nascem blogs especializados em humor para/sobre a relação entre mães e filhos, sítios sobre mães modernas e antenadas com o social/ecologica/economica/psicologicamente correto, páginas que respondem a qualquer (qualquer mesmo) dúvida que possa existir nesse universo maternal e sites que parecem ter câmeras escondidas dentro da casa das mães, porque mandam e-mails para elas todas as semanas dizendo exatamente como o bebê dela está se comportando naqueles dias...

De tudo o que venho descobrindo neste mar sem fim que é a blogosfera materna, e é muita coisa mesmo, o que mais gosto são das mães otimistas e realizadas, divertidas, que, embora enfrentem como todas as outras as dramáticas crises de choro nas madrugadas, conseguem ver arco-íris no sorrisinho do filhote e dão mais valor a isso que ao próprio chororô dramalhoso.

Reconheço que nem tudo são flores, mas 'fazeroquê' se sou dessas, sou mãe da vidinha cor-de-rosa, melosa assumida? Sofrer de verdade eu sofri quando a morte visitou minha família. Quando a vida me deu uma lambada e me nocauteou por dez segundos. Agora o combate é outro. Com esta nova vida linda (e chorona, cocozenta, manhosinha, por que não?) que inaugura em minha vida, pra que perder tempo reclamando tanto se memória de mãe (todo mundo sabe) é curta para o sofrimento? Quero mesmo é registrar e lembrar pra sempre que este é o momento mais repleto de amor e felicidade da minha existência. E que meu filho é a coisa mais importante do mundo. Com clichê e tudo!

Às vezes penso que demorei muito pra ser mãe. Foi uma conquista dos 30. Mas, refletindo melhor, a maternidade chegou na hora certa pra mim. Sou mãe digital, conectada com as outras mães do mundão inteiro, solidária com seus dramalhões sobre "cadê minha vida social?", mas consciente de que ser mãe exigiria de mim muitos sacrifícios. Não sou mais uma menina chorona. Quis muito engravidar e embora não imaginasse o tamanho da trabalheira que um filho dá, sabia que teria de sacrificar muita coisa, como o sono ininterrupto, as viagens, o trabalho (por um tempo), o corpo de antes, shows e toda a vida noturna, alimentos e bebidas e até a frequência da vida sexual... Não entrei nessa desavisada e por isso não me sinto no direito de reclamar tanto quanto o que tenho lido por aí (é só um desabafo, tá?).

E o melhor de tudo: a recompensa está ali no bercinho, dormindo com cara de anjinho, crescendo feito abobrinha no quintal e aprendendo coisa nova todo dia - enchendo a mamãe de orgulho e aumentando o que eu já conhecia como felicidade, de forma exponencial. 

Pode ser que eu mude meu pensamento se a exaustão me abater (ninguém está livre), mas por agora prefiro contar tudo quanto é coisa boa que meu filho trouxe pra minha vida. E comemorar também no mundo digital cada passinho do desenvolvimento do João Augusto, uma maravilhosa razão para viver e sorrir. Se tiver de reclamar, que seja de coisa séria. Tomara que não.

34 comentários:

  1. Linda, linda! Que bom que quando eu tiver meus filhotes, vou ter um arsenal online! Inclusive esse blog aqui, que já me ensina e diverte tanto! =)

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  2. Taizinha... Sinto que você já foi fisgada e não demora pro primeiro Bubniakizinho chegar! Fico feliz que desde já tenha esse interesse. Eu mesma só fui conhecer este universo depois de criar este blog. Assim você tem mais tempo e sai na vantagem, rere

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  3. Esteja em casa Tai querida! Venha sempre! Beijao

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  4. Lindo lindo!! Adorei!!
    Também adoro dividir ideias com outras mães, faz parte de mim já!! rsrsrs

    Beijos!
    #amigacomenta
    Bárbara
    http://www.soumaeeagora.com
    http://www.facebook.com/soumaeeagora

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    1. Tô começando agora e descobrindo que tem muito mais mãe conectada do que eu imaginava. Beijo querida! Vou te seguir.

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  5. OI Emanoelle,
    a materninade encontrou no mundo digital muito apoio, matas respostas e muitas amigas. E melhor de tudo é a sensação de se sentir normal ao ver que as outras mães passam pela mesma situação.
    Adorei o post.
    beijos
    Chris
    http://inventandocomamamae.blogspot.com.br/
    #amigacomenta

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    1. É exatamente isso Chris! Obrigada pela companhia. beijinho.

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  6. Adoreeeeeeeeiii o post. É maravihoso sabermos que não estamos sozinhas em nossos conflitos internos e nas alegrias também.
    Bjocas
    #amigacomenta
    (Test Drive Mami)

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    1. Obrigada Pri! Apareça sempre... Assim te faço companhia também. Beijinho

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  7. Adorei o post. É maravilhoso sabermos que não estamos sozinhas nas dúvidas e nas alegrias. A blogosfera materna une muita gente... bom demais!
    Bjocas
    #amigacomenta
    (Test Drive Mami)

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  8. A internet é um mar, vc encontra belezas, como também perigos, sempre falo que apesar de adorar esse mar, tenho certos cuidados.
    Gostei da reflexão, é importante vc lembrar que antes era só 12 fotos no orkut, como eu sofria escolhendo quais fotos colocar kkkkkkkkkk hj posto quase todo dia uma foto no instagran rsrsrs
    #amigacomenta

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    1. E tenho amado cada dia mais navegar neste mar materno! Obrigada pela companhia querida. Volte sempre. Beijo

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  9. Oiee,

    Ter a internet como ajuda realmente é tudibom!! Adorei o post!!

    Bjo!

    Loreta #amigacomenta;)
    @bagagemdemae

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  10. Manu.
    Eu adorei o texto, adorei os conceitos e digo que o melhor é que a maternidade digital trará um equilíbrio entre o rosa e o negro. Mas esse é um passo maior e só acontecerá em médio a longo prazo. Sou fã do movimento.
    bjs
    Fabi (Mulher e Mãe)
    #amigacomenta

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    1. Também to aprendendo a interagir nesse movimento Fabi. Que bom que você passou por aqui. Volte sempre. Beijinho

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  11. que bacana o post!
    se eu não tivesse a internet estaria perdida, pois estou grávida da minha primeira filha e na minha família a criança mais nova tem 22 anos, ou seja, muita coisa evoluiu e mudou, né? ahhahahahaha
    fazem poucos meses que resolvi fazer meu blog sobre gravidez e maternidade e estou amando fazer parte desta blogsfera e de fazer meu "diário virtual".
    quanto ao lado "negativo" de ser mãe, acho que ele é esquecido e apagado com as bençãos e felicidade que os pimpolhos nos proporcionam, né?
    estou na reta final e em breve poderei compartilhar o amor de mãe, as crises, medos e afins!
    adorei seu blog! parabéns

    beijos
    Paola
    #amigacomenta
    http://dicasdamaedipa.blogspot.com.br/

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    1. Boa hora pra você Paola... Este nosso espaço é precioso menina... Eu aprendo muito todos os dias. Apareça sempre pra gente trocar ideia. Beijinho

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  12. Quando meu filho mais velho nasceu, ainda não existiam blogs. Lembro de fazer uma página em html para que a família pudesse acompanhar a gravidez, velhos tempos... A maior parte das fotos que eu tenho dele daquela época também não são digitais, eu ainda não tinha uma câmera dessas.

    Deu saudade agora! rs

    Beijos
    Tati
    Mulher e Mãe
    #amigacomenta

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    1. Pioneira hein Thaty? Muito legal. Apareça sempre tá? Beijinho

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  13. Muito legal o seu texto. E é verdade, nós hoje temos uma vida bem diferente. Mas muito boa. Os prós vencem disparados. Esse partilhar informações e experiências é muito bom! Beijos! #amigacomenta

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    1. Sim, é uma delícia mesmo né? Volte sempre tá? Beijinho

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  14. Eu estou nos dois grupos, reclamo um pouco e também comemoro bastante!!!!
    Maternidade é isso, tem o lado bom, mas também tem o ruim. E se na vida real é assim: queremos falar com os amigos do que nos atormenta ou do que está nos magoando;na vida virtual pra mim funciona do mesmo jeito.
    Comemoro, divido ideias e reclamo quando preciso reclamar!! rs

    Beijão.
    @_maejestade
    #amigacomenta
    http://www.vidademaejestade.com/

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    1. Tá certa Rose... é isso mesmo. Apareça sempre tá? Beijinho

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  15. Muito lindo o post.Não faz muito tempo que entrei p/ esse mundo da blogosfera,tinha muitas dúvidas e receios,depois que conheci o Mulher e Mãe,fui vendo que é possível amizades virtuais ,dividir as incertezes e as alegrias...estou adorando tudo isso.
    bjs
    #amigacomenta

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    1. A gente unida é mais forte né Sil? beijoca. apareça sempre

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  16. Na internet compartilhamos e temos a noção de que não estamos sozinhas. É bom contar com esse apoio. Existem probleminhas aqui e ali, mas no final das contas compensa ser mãe digital.
    Beijos!
    #amigacomenta

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    1. Super compensa! Tá sendo uma delícia. Pena que não sobra muito tempo né? Beijinho e apareça sempre.

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  17. E como é om pode compartilhar né?
    Otimo post

    Michelle Imilio
    #amigacomenta

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  18. Adorei, falou tudo do jeito que a gente se sente.
    vou linkar (http://cartasaomeubebe.com/aos-pais/) no blog :)

    bjo,
    Mariáh

    #amigacomenta

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    1. Oi Mariáh! Que joia! Que bom que se identificou. Beijinho pra você. vou lá no teu te visitar.

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  19. E eles vão em um ritmo mais acelerado ainda, né? O meu Pedro, com 1 a e 5 meses já seleciona no ipad qual é o aplicativo que quer brincar...
    Parabéns pelo post!
    Abraço
    Bárbara Murayama
    barbaramurayama.blogspot.com
    #amigacomenta

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    Respostas
    1. Parece que eles já nascem sabendo né? Geração Y chegando amiga... Vamos nos preparar. Beijinho e até o próximo post. Apareça sempre.

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Comenta aí que a mamãe fica faceira! E volte sempre, a casa é sua! :-) Ou me mande um e-mail: emanoellew@gmail.com

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